16 fevereiro 2017

Anacrônico | Prólogo


A lua está cheia, mas falta metade dela.
Ele está sentado na janela do segundo andar, o traseiro sobre o peitoril e as pernas longas penduradas para o lado de fora. Segura a palheta com a boca e dedilha uma música romântica no violão, como se precisasse fazer ouvir suas notas pela vizinhança.
Anwar não me nota a principio, provavelmente uma coisa pequena e imperceptível apoiada à caixa de correio, então eu só o observo enquanto ele continua a tocar. Seus ombros mexem-se conforme o ritmo da canção não cantada, os fios castanhos caindo sobre o rosto e o ar, antes frio, parece me esquentar quando nossos olhares finalmente se encontram.
Suas mãos não mais dedilham o instrumento musical e seu rosto se contrai em uma expressão de incredulidade, não há sorrisos me recebendo. Talvez o cenário de uma velha amiga dentro de um vestido de noiva trabalhado em cetim seja mesmo um pouco mórbido, então nós só nos encaramos pelo que parece ser uma eternidade.
Eu, com a maquiagem destruída pelas lagrimas. 
Ele, extremamente perdido. 
Nós, só não sabendo o que fazer.