Em Memória | Dia um

terça-feira, 7 de março de 2017


 Dia um e o maravilhoso mundo das respostas curtas.








Não me apaixonei por Selena no instante em que a vi, como acontece na maioria dos filmes e séries e livros e, pra ser sincero, ela me pareceu até comum demais porque não era nem bonita nem feia e usava calça jeans em todas as ocasiões.
No dia em que fomos oficialmente apresentados fazia um frio danado e eu usava bem umas três ou quatro blusas debaixo do moletom. Digo oficialmente porque já sabia da sua existência e costumava ouvir uma coisa ou três a seu respeito, mesmo que não tivéssemos trocado um aceno sequer e mesmo que nenhum de nós dois tivesse vontade de fazê-lo, o que foi bom porque assim ninguém tentou agradar ninguém.
Mas vamos lá: fazia um frio danado quando eu a conheci. Ela estava ainda mais agasalhada do que eu o que, de cara, me fez a achar engraçada porque era muito pequena e porque parecia se afogar em meio a tanto tecido. Devo ter comentado algo a respeito com Fred, um dos meus cinco ou quatro amigos, mas não lembro muito bem o quê e isso também não é tão importante assim.
Era a primeira semana do inverno e a cafeteria que tínhamos o costume de frequentar estava cheia, em parte porque tinha um café realmente muito bom e em parte porque era mais perto do campus e ninguém queria realmente andar um pouquinho a mais com a neve entrando pelas botas.
Fred e Evaline falavam sem parar sobre o último encontro de Fred enquanto andávamos até a fila e eu ouvia algumas partes e ignorava outras porque estava mais preocupado em como sairíamos dali se a neve aumentasse como alguém tinha dito em alguma previsão de algum canal qualquer do que com os últimos casos amorosos de meu amigo.
– Ela disse que não ia mais sair comigo porque tenho nome de filósofo. – Ele disse e eu ri, me divertindo com as excentricidades de suas sempre quase namoradas. Quase porque nunca acontecia mesmo que ele quisesse muito e também quase porque às vezes passava muito perto de acontecer. – Como se alguém me chamasse de Friedrich!
– Ei, aquela ali não é a Selena? – Eva perguntou, interrompendo a conversa sem um pingo de remorso, apontando para a moça exageradamente agasalhada sentada em uma mesa. Ainda estava sozinha, o que não era tão raro assim. – Quando vocês falaram eu achei mesmo que era ela. Vamos lá!
– Eu faço os pedidos. – Fred diz, colocando as mãos no bolso e balançando os ombros em um claro sinal de descaso. Ele nunca foi uma pessoa muito receptiva enquanto sóbrio, mesmo que fosse extremamente comunicativo enquanto um pouco alcoolizado. – Vão vocês.
Eva dá de ombros e, sem me dar chances de escolher entre ficar com Fred ou ir com ela, talvez porque já soubesse que eu escolheria ficar, agarra-me pelo braço e me arrasta consigo em uma caminhada rápida e trôpega até a mesa de Selena Gomez, sua amiga, colega ou conhecida. 
Tenho que dizer aqui, antes de seguir em frente com essa lembrança, que Evaline Pedersen não é nem um pouco parecida com as pessoas que você geralmente tropeça na rua ou na fila do cinema porque ela é uma figura única e extremamente curiosa e, sendo assim, é alguém que merece alguns parágrafos só para si antes que eu me envolva demais nessa narrativa e esqueça de lhe dar o destaque merecido, o que me causaria problemas futuros. Mas vamos lá: a primeira impressão que você terá de Evaline, depois de observar sua tatuagem de coração abaixo do olho esquerdo ou o seu cabelo azul rebelde ou, ainda, o fato de que tinha cinco piercings espalhados pela face, é que ela não podia bater bem da cabeça.
Ela era uma garota de muitas paixões e não falo isso apenas no sentido romântico da coisa, muito embora ela fosse mesmo muito devota e completamente apaixonada pelas suas artes, seus animais e seu violão, que ela apelidou carinhosamente de Beethoven, mesmo que ele tocasse um piano e mesmo que ela não gostasse tanto assim de música clássica. Você não podia levá-la a sério cem por cento do tempo e, se ela se irritasse com você, a rixa duraria por dias ou semanas ou meses. Era meio doida e falava muito alto, mas não era de todo o mal. Na verdade, não era de mal nenhum.
Mas o fato mesmo é que Evaline havia me arrastado para longe da fila e para longe de Fred, onde ela sabia que eu queria e preferiria ficar, e fez isso propositalmente porque nunca foi uma pessoa de andar sozinha e porque andar sozinha enquanto já estava acompanhada era inaceitável, então, é claro, eu estava ao seu lado em completo desengonço.
Selena, por sua vez, não notou ou fingiu não notar a nossa aproximação nada sutil, mais interessada em ler os capítulos finais de Madame Bovary do que em falar conosco, mas não me importei com isso visto que Madame Bovary é um livro muito bom e infinitamente mais interessante do que eu e infinitamente mais interessante do que Eva e também porque eu não tinha nenhum interesse real em ir até a sua mesa.
Isso não significa, é claro, que minha amiga tenha pensado dessa mesma forma.
– Não fala mais comigo não? – Disse ao passo em que sentava-se em uma das cadeiras vazias e me puxava pela manga do casaco para fazer o mesmo, desinibida como só ela sabia ser. Selena, um pouco surpresa, fechou o livro sem antes marca-lo e sorriu quando percebeu que tratava-se de Evaline, mas não teve de tempo de respondê-la adequadamente porque, e aqui vai outra coisa que você precisa saber sobre Eva, ela não deixa ninguém terminar uma frase se não estiver interessada em ouvir. – Esse é o Justin, eu já te falei dele.
– Sim, sim, estou lembrada. – Ela respondeu, direcionando seu sorriso para mim e me oferecendo sua mão para um aperto ou amigável ou educado. Talvez os dois. – Lembro-me de você por Evaline e, é claro, por ter pulado no lago congelado ano passado. Estava bêbado ou o quê?
Evaline ri, o cabelo azul rebelde mexendo-se em um contraste bonito com sua pele naturalmente bronzeada e, querendo afastar e expulsar e enxotar completamente a lembrança de minha quase hipotermia, mas já sabendo que seria esse o assunto principal da nossa conversa se eu desse abertura o suficiente, penso que por essas e outras que Eva gosta tanto de Selena.
– Foi uma aposta.
 Digo simples e, talvez, até um pouco curto, mas, definitivamente, grosso. Selena levanta as sobrancelhas em um sinal de compreensão, mas, claramente, está segurando-se para não me questionar sobre o que eu perdi e, claramente, mesmo ainda rindo, Evaline segurava-se para não dar com a língua nos dentes.
– Eu já perdi uma aposta uma vez. – Ela disse, mais pra falar alguma coisa entre a ainda existente, mas quase extinta, crise de risos de Evaline e o nosso silêncio constrangedor de dois estranhos do que por querer falar de fato. – Mas eu só tive que ir a um encontro, então...
– Hum.
Digo, sem saber muito bem o que falar, mas ela já está concentrada em um caderno pequeno que até então eu não havia notado e acho que, na verdade, é até melhor do que levarmos uma conversa sem um pingo de interesse ou disposição ou, ainda, assunto. Não me leve a mal, mas nunca fui bom em causar boas primeiras impressões fora de um clube porque eu não me esforçava para isso e também porque era algo que eu não fazia muita questão, e, até o momento, estava tudo bem para mim.
– Mas, e aí Selena, como vai o Ezra? – Eva pergunta, em algum momento não específico para que eu me lembre com certeza qual foi. – Ele vai voltar esse ano?
– Ele estava aqui um pouco antes de você chegar, saiu por que...
E, a partir daí, eu não mais direcionei minha atenção para a conversa que se desenrolava ao meu lado porque, dentre muitas outras coisas, não era algo que eu tinha interesse em ouvir porque não sabia quem era Ezra, porque não sabia o que a volta dele significava e porque não sabia o que ele era para minha amiga e para a amiga da minha amiga. 
Deve ter passado alguns pares de minutos onde eu encarava um quadro torto muito mal colocado na parede marrom do estabelecimento e segurava a minha vontade de ir até lá só para concertá-lo, até que Fred apareceu com os nossos lanches embalados para viagem mesmo que não tenha nos questionado sobre isso e mesmo que, aparentemente, já tivéssemos uma mesa. 
– Pra viagem?
Evaline questionou Fred, interrompendo Selena em algum assunto quando notou as sacolas plásticas e o suporte com os nossos cafés nas mãos grandes de nosso amigo. Ele não pareceu muito intimidado por suas sobrancelhas descoloridas e deu de ombros em seu gesto habitual. 
– Não tínhamos mesa. 
– Eu já estava de saída, vocês podem ficar com essa. – Selena disse, deixando algumas notas de cinco em cima da mesa enquanto socava o resto de seus pertences na mochila verde-musgo. – Eva, depois eu te ligo. 
E, com um aceno de cabeça, ela retirou-se em um amontoado de roupas que a deixavam ainda menor e passou pelas pessoas muito menos desengonçada do que eu o havia feito cerca de quarenta minutos atrás. 
– Vocês são inacreditáveis! – Eva disse, pegando as sacolas para verificar os pedidos. – Não custa nada tratar os outros bem, pra variar.
Fred levanta as mãos em um sinal de rendição e, sabendo que eu tinha lá minha parcela de culpa, não tentei me defender porque não era assim tão cínico, porque não tinha razão e também porque estava com muita fome para entrar em uma discussão logo pela manhã. 
– Sua amiga esqueceu algo aqui. – Fred diz ao sentar-se no lugar que antes era ocupado por Selena e apanhar a pequena folha deixada para trás. Depois de algum tempo analisando-a, há um risinho ou incriminatório ou sarcástico ou acusador em sua face que é completamente e inegavelmente direcionado para mim, mas, antes que eu possa fazer alguma coisa a respeito, Evaline o furta o papel. – Ei!
A reação de Eva é quase a mesma de Fred, mas, dessa vez, eu tenho tempo de pegar o papel de sua mão e ver o motivo para tanta chacota. Trata-se de uma folha sem pauta e só consigo notar esse detalhe agora que a tenho em mãos, mas é o conteúdo dela que realmente importa: há um desenho extremamente desleixado, mas, ainda assim, dá para reconhecer meus traços na posição em que fiquei durante toda a sua conversa com Evaline. Minha testa está franzida, a touca cobre apenas parte de meu cabelo exatamente como faz agora, minha mandíbula contraída fora ressaltada no papel e, no fim da folha, há um rabisco quase indefinível que me informa sobre a data.
– O maravilhoso mundo das respostas curtas e das faces de tédio.
– O quê?
Questiono Fred que, agora, dá de ombros e me mostra seu risinho acusatório outra vez. Parece muito satisfeito em me ver nessa situação.
– Está escrito no verso.
Viro a folha imediatamente, notando que o que ele fala é verdade.
Não sei muito bem o que se passou pela minha cabeça durante os momentos seguintes, mas, se me lembro bem, eu estava surpreso demais para rebater as gracinhas e as piadinhas e as insinuações de meus amigos e, sendo assim, fiquei a observar ou a analisar ou a sondar seus rabiscos por mais algum tempo antes de enfiá-lo no bolso da calça e tomar um gole do café preto que Fred havia trazido para mim.
Mesmo agora, quando volto a reviver esse momento ao transcrevê-lo, não sei muito bem o que ela quis dizer ao me deixar a pequena folha porque nunca perguntei e porque, mesmo que eu tentasse descobrir seus motivos naquela época - e mesmo agora -, nada nunca parecia se encaixar. Fui perceber só mais tarde que tentar entendê-la era algo muito mais complexo do que achei que fosse na primeira vez em que a vi ou, ainda, do que achei que fosse na primeira vez que fui até sua casa e descobri que ela não assistia televisão, mas era muito adepta do cinema ou que não ouvia música em aparelhos modernos, mas as comprava no iTunes mesmo assim.
Durante muito tempo a achei completamente maluca e tentei me convencer de que todas as nossas tardes e, por vezes, noites juntos tratavam-se apenas de um Justin tentando cuidar de uma amiga muito querida porque, sim, em algum ponto, mesmo depois de todos os nossos encontros desastrosos, fomos muito amigos, mas tudo isso, é claro, faz parte de um capítulo completamente diferente do que estamos agora e completamente diferente do que vamos chegar um pouco mais adiante.
No mais, vamos logo ao segundo dia.

7 comentários:

  1. Thay, agora que pudê ver que postou. Finalmente!!!
    Não acredito que vou começar a shippar Jelena por sua causaaaaaaaaaa. Eu gosto tanto dela e do Abel juntos :( mas agora gostei dela com o JB.
    Enfim, não existe mais elogios no meu vocábulo para você. Acho que já falei todos que conheço, mas eu sempre tenho que dizer: você evoluí cada dia mais e eu sinto orgulho disso. Eu admiro demais cada coisinha que você faz. Af te amo.
    Quero saber do próximo e o Fred é meu fav até agora. Me identifiquei com tamanha falta de recepção.
    Beijos, te amo e saudades.
    Mirela.

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    1. Já dizia o ditado popular: quem é vivo sempre aparece! Aqui o serviço tarda, mas chega (as vezes extravia, mas aí a gente finque que nada aconteceu KKK).
      Então, editei o capítulo e optei por deixar com os nomes originais. Fica melhor pra ler, né? Enfim, eu agradeço demais por todos os elogios e carinho que você tem por mim e por minhas estórias. Uma das minhas maiores motivações pra continuar escrevendo é você, te amo demais. Obrigada por tudo!
      Eu amo todos os personagens dessa estória e me apeguei real a eles. Tenho um arquivo no word com toda a história de vida deles e, de tanto tempo que passei criando essas peças, acabei me apegando demais. O Fred é um cara legal, gente boassa! (acho que vocês iam se dar bem na vida real!!!!)
      Te amo demais ♥

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  2. uma notinha para eu lembrar de ler isso aq.

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    1. gritooo
      eu amei mundo, pensei que não ia gostar por ser jelena, mas como os nomes são diferentes, imaginei outras pessoas kjfyncn
      Eu consegui visualizar a história todinha e esse primeiro capítulo me deixou ansiando por mais, eu quero mais, thay. Posta logo!
      - um comentário bem curtinho de uma malu com muito sono. bjs

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    2. Oi, Maluzinha! Eu mudei os nomes porque fica melhor pra ler, né? Fico feliz que tenha funcionado melhor desse modo pra ti.
      Que bom! Eu amo demais ''Em Memória'' e é, de longe, uma das minhas favoritas. Postarei assim que der!

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  3. mano, eu amo quando as histórias são narradas dessa forma, mas isso sempre me deixa na aflição porque parece que algo de ruim vai acontecer no "último" dia - olá 'quem é você, alasca?".
    mas, eu adorei!

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  4. Não se preocupa com isso, garanto que essa primeira contagem termina com algo bem legalzinho. Mas entendo a aflição, passei por ela mais do que gostaria (inclusive com a Alasca!). Obrigada por ter lido, espero te ver mais vezes por aqui! <3

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